quinta-feira, 28 de maio de 2020

Pela Janela


Por essa abertura, que se transformou na única ligação que tenho com mundo lá de fora, passo meus dias a observar a vida que acontece no exterior do cenário onde vivo meu retiro.

Estou há dias, que passam rápido como um raio ao mesmo tempo que parecem pertencer a uma eternidade sem fim, a viver em meu universo particular delimitado pelas paredes de meu lar.

 A vida de fora e de dentro seguem em curso com as determinações dos acontecimentos que não dão escolhas a muitas variações, embora sempre exista alguma, cada um segue a sua. Eu sigo a minha na clausura do recolhimento em busca da suposta segurança.

Pela janela sigo meus dias a desejar do outro lado poder estar e sinto a energia do vento que lá bate. Me transporto para as calçadas, corro até o mar, mergulho e me energizo em suas águas, saio e rolo na areia e nela deito e fico a admirar o sol que me aquece a alma, iluminando a mente que bate em meu coração abrindo as portas das forças que lá residem me fazendo crer que breve tudo sera historia e de corpo presente, e não só de alma, estarei a desfrutar desse mar que tanto amo e que me acolhe com a divindade que só ele tem.

E das areias me levanto e sigo de volta ao meu pouso seguro de contemplação pela janela.

Meu amor

O meu amor é como vento que voa sem destino até onde o céu beija o mar e nele mergulha e sai a nadar ao encontro da lua que emerge do fundo das luzes que se apagam e sobe para céu que vira noite e de lá volta para encontrar o sol que das águas frias vem surgindo clareando a dama da escuridão que começa a se esquentar com seu esplendor e assim vem em voo rasante atingir meu coração que arde de anseio para a chama da paixão receber e para ela se abre deixando-se queimar até sucumbir de amor.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Toque de recolher

Olho de minha janela e vejo o deserto das ruas. Onde até ontem pessoas circulavam com passos frenéticos sem trocar um único olhar, agora posso ver até os buracos das calçadas do alto de minha sacada do décimo andar. Pois não há ninguém para bloquear minha visão. Inacreditável, se alguém me contasse que isso se daria não acreditaria, mas é verdade, está bem debaixo de meus olhos que buscam por uma imagem que se mexa e nada vê. 

O mundo parou, silenciou diante de uma criatura que nem ao menos podemos ver, um ser invisível aos olhos, mas nocivo a própria vida. 

De uma hora para outra tivemos que mudar a rotina, nos trancafiar em casa em quarentena e refazer nossos hábitos, reinventar a vida. A vida que não tinha tempo para ser vivida e agora está tendo que aprender o que fazer com ele. 

De repente a vida chega e diz: pendura a correria ali no cabide e vamos escrever um capitulo novo, uma nova forma. 

Mas e depois que a quarentena passar? Será que voltaremos correndo para mesma vida de antes, ou vamos gostar tanto desse novo ritmo que ficara difícil retornar? Um risco que teremos que correr. 

O mundo parou e curiosamente as pessoas em seus afastamentos parecem se unir muito mais do que quando as mãos podiam se dar e não sabiam o verdadeiro valor da aproximação. 

As sensibilidades afloram, a tolerância parece rever seus limites e as prioridades mudam. A vida vira seu foco para a busca do sobreviver. Os interesses se unificam entre ricos e pobres, religiões, raças, gêneros e orientações sexuais. Todos estão unidos por um único objetivo, o de acordar na manhã que será anunciada que vencemos esse inimigo invisível e que as portas do viver livremente serão reabertas. 

Enquanto essa manhã não chega vai se vivendo tentando ferozmente acordar a cada dia identificando as alterações nos valores que vão surgindo como brotos de uma nova arvore. 

Descobrimos habilidades até então desconhecidas do mundo da correria e da falta de tempo. Lembramos de pessoas com quem não falávamos há tempos e de repente simplesmente queremos saber se elas estão bem. O afastamento compulsório causa aproximações inesperadas e surpreendentes tão ou mais que as mudanças de hábitos e de prioridades. 

Talvez o mundo tenha parado para poder voltar a girar, talvez fosse necessário nos afogarmos no medo para voltarmos a respirar na esperança, talvez tivéssemos que morrer para poder viver. Mas isso é só e simplesmente talvez, o mesmo talvez que estamos vivendo a cada dia sem ter a certeza de nada a não ser de que nunca mais seremos os mesmos e que estamos vivendo um momento histórico da humanidade. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Quando menos se espera, a transformação vem e muda tudo, até o que se achava que estava perfeito. 

As vezes é preciso um ajuste, um balançar nas cadeiras do perfeito para adoçar a boca do eterno e inquieto desejo de viver a vida em sua plenitude, usufruindo o que ela tem de melhor a oferecer.