segunda-feira, 27 de abril de 2026

 Gosto do silêncio que envolve o que não há como ser dito, mas ainda assim insiste em estar presente.

E nos intervalos, no que parece não existir, nos quase, alguma coisa pulsa.

Os vazios se preenchem, aos poucos, como quem vai tateando o escuro.

E, de repente, o que era ausência se organiza, ganha corpo, se espalha, e chama e agrega.

As palavras guardadas, escondidas, sufocadas, aproximam-se daquelas que passam distraídas, sem querer se deixar notar.

E é nesse encontro, quase imperceptível, que algo começa.

Porque nem tudo precisa ser dito para existir, mas tudo que existe, de algum modo, pede voz.

E é entre esse silêncio e essa voz, que a gente começa.

 E a roda se abre.

Ela chega, pede licença, senta.


Cruza as letras delicadamente

e distribui poesia, contos, histórias, conversas.


Lança pequenos começos ao vento

para quem quiser completar.


Observa os que chegam, os que vão,

quem fica, quem fala, quem nada diz, 

e vai tecendo, à sua volta,

a teia da união.


É democrática.

Não há padrões pré-estabelecidos.

Cada um a encontra à sua maneira.

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Palavra

 

A palavra encontra quem a quer escutar, pode se fazer presente mesmo quando não é dita.

O seu brilho está no encontro, no sentar-se em volta do partilhar.

Curioso perceber que, em um mundo que cada vez mais descarta-se a presença, a palavra se faz ainda mais necessária e aclamada.

A palavra tem o poder de salvar, de libertar a alma. Por meio dela, podemos chegar onde nos permitirmos.

Ela rasga, entra, inebria, encharca a alma e encanta a vida.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 O Segundas da palavra me deu a alaegria do encontro, do olhar, do sentir a força das palavras, mesmo que não ditas. A cada encontro, um compartilhar de escritos, de histórias, de emoções que se misturam.

Um tempo dedicado ao mundo ao vivo, do olho no olho, a roda da escuta e do sentir.

Sempre uma estreia, porque, por mais que pareçamos os mesmos, nunca seremos os mesmos.

domingo, 8 de março de 2026

Tempo

 O que é a idade, e o que é o tempo? Para que servem?


Por que acompanhar tão de perto esses números tão absolutamente relativos, que buscam uma espécie de concretude dentro da mais absurda relatividade?


 Utopia querer igualar as marcações do tempo,  os relógios são únicos,

Meu um segundo pode ser a tua uma

hora. 


Então volto a pergunta para quem possa responder: o que é a idade, e o que é o tempo? 

segunda-feira, 2 de março de 2026

FOME

 Essa noite tive um sonho estranho.

Havia em mim uma grande fome de palavras. Eu as pegava uma a uma: mastigava, engolia. Depois outra. E outra. E outra. Mas a fome não cessava, ao contrário, crescia.


Acordei sobressaltada. A garganta apertava. Sentia-me engasgada. Tossi. Tossi. Vomitei. De uma só vez, expeli todas as palavras engolidas. Esvaziei-me do que havia sido retido, do que não foi dito.


E, vazia, voltei a dormir.

Sem fome.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 O relógio já ia longe, embora o dia ainda não estivesse de pé. O céu era um acolchoado de algodão, com buracos por onde uma luminosidade brigava por escapar. E eu, na rua adormecida e engolida pela névoa, seguia o caminho sem ter para onde.

“O dia amanheceu antes de acordar”, pensei.


Os passantes, alheios a mim, circulavam sem pressa, sem interesse pelo que os rodeava.


Sentei em um banco e fiquei a observar. Caras fechadas, sorrisos soltos, conversas animadas, discussões, - a vida desfilava diante de meus olhos.


A noite chegou antes de o dia se apresentar. E lá estava eu, a observar para fora, no escape de mim.