sábado, 11 de julho de 2026

 Cheguei para meu primeiro encontro com o grupo de escrita. Faltava meia hora. Desci do táxi e fiquei na calçada, em frente ao local do evento, à espera de que abrisse.

Andei de um lado para o outro. Peguei o celular. Guardei-o.

- Vinte minutos ainda…

Olhei para o prédio. Meu olhar subiu e varreu a rua.

-  Nossa, quantos apartamentos.

Não tinha me dado conta de que estavam ali. Quem será que vive neles? O que estarão fazendo? Já acordaram? Acho que não. Ninguém nas janelas.

É tão curioso imaginar a vida das pessoas que não vemos, mas sabemos que existem.

A vida acontece por trás daquelas cortinas, independentemente do meu olhar.

O mundo gira e o sol nasce todas as manhãs, mesmo que não seja visto nem sentido.


A lista

 Todos os dias, ao acordar, me pergunto: o que fazer? E lá vem uma interminável lista de tarefas que nem sei por onde começar. Mas hoje foi diferente: resolvi começar meu dia e depois faria a bendita lista. 

  

Tomei meu café sentada à mesa, de  frente para a janela e descobri uma vista que nunca tinha parado para apreciar.

Levantei e peguei um livro na estante que havia ganhado de aniversário, há uns dois ou três anos. Comecei a ler e descobri ser sobre um tema que há muito tempo tinha curiosidade. 

Foram mais de três horas presa àquelas páginas sem conseguir largar, mas meu estômago chamou e fui à cozinha: o que comer? Dois ovos mexidos com uma taça de vinho - banquete. 

Voltei ao livro, o cachorro lambeu-me os calcanhares. “-coitado, nem te vi hoje”.

Dei-lhe comida e o levei ao parque.

Meia hora depois, voltei para casa. 

Encontrei uma vizinha no elevador, que me convidou para café e roda de leitura em sua casa.  Sempre me convida e eu sempre tenho uma desculpa na ponta da língua, mas dessa vez fui e me surpreendi em ter gostado - “devia ter aceitado o convite há mais tempo”.

Liguei a TV. Havia vários filmes separados há tempos para serem vistos, mas à espera de serem incluídos em minha lista de tarefas - assisti  a três.


Já era madrugada e ainda não tinha feito minha lista de tarefas do dia. Acho que vou deixar para amanhã.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Lisboa

 Lisboa da luminosidade que contagia. Lisboa dos verões intensos, dos dias longos e dos invernos úmidos, de ventos cortantes.


Lisboa dos telhados que encantam, das portas coloridas, das memórias que me vêm dos livros que lia quando criança, sem saber que um dia pisaria neste solo, viveria nele e aqui amaria.


Lisboa que a todos recebe com suas histórias, sua gente, seus sabores, suas cores, seus jardins, suas paisagens e seus recantos. A cada dia descobrimos um lugar mais encantador que o outro. E quanto mais tempo fico por cá, mais sei que devo ficar.


Cidade pequena de coração gigante. E quanto mais caminhos percorro, mais sei que ainda preciso percorrer.


Eu vim do outro lado do oceano para descobrir que aqui também havia um lugar meu. Um lugar onde gosto de estar, onde quero viver.


Lisboa, que aprendi e me permiti chamar de minha. Onde fiz amigos a quem hoje chamo de família escolhida.


Lisboa que me abraçou forte, calorosa e gentil. Que me ensinou que posso ser de todos os lugares. Que me deu a liberdade de entender que posso ser de onde eu quiser, de onde me faz bem.

Posso ser de onde posso ser eu. Ou todos os meus eus.

Sem culpa. Sem medo.

Só ser, sem ter que ser.

domingo, 24 de maio de 2026

Tempo

 Um dia escutei meu amigo José Sardinha falar: “O tempo não existe, mas ele passa.” Aquilo mexeu tanto comigo, me fez parar e pensar no tempo que não vejo, mas que sinto, ou que não sinto, mas vejo. 

Não sei a ordem, visto que é tão subjetivo e evidente ao mesmo tempo, que não dá para explicar o que vejo ou o que sinto, mas é fato que existe e persiste. 

Há coisas na vida que não precisam ser explicadas para justificar a existência e talvez o tempo, o bendito tempo seja uma delas . 

sábado, 16 de maio de 2026

 A vida acontece nos intervalos, entre o respiro e o silêncio, nas brechas do caminhar e do chegar. 

Assim são as palavras quando se encontram e transformam sentimentos, memórias, lembranças,  em histórias a serem contadas ou não, mas sentidas com certeza. Porque é no coração que elas respiram, sobrevivem e criam as imagens que nos atravessam.

 Sou adepta dos porquês que não respondem

Das perguntas sem respostas

Das respostas sem perguntas 

Das atitudes sem definição 

Das buscas sem causas

Dos olhares perdidos em prol do nada que tudo encontram 

Da falta de programação que tudo realiza 

Do saber escutar mesmo quando se tem um mundo para gritar

Da lágrima que corre sem motivo dito

Do abraço que diz

Do olhar que fala


Da vida que vive sem ter explicar 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 Gosto do silêncio que envolve o que não há como ser dito, mas ainda assim insiste em estar presente.

E nos intervalos, no que parece não existir, nos quase, alguma coisa pulsa.

Os vazios se preenchem, aos poucos, como quem vai tateando o escuro.

E, de repente, o que era ausência se organiza, ganha corpo, se espalha, e chama e agrega.

As palavras guardadas, escondidas, sufocadas, aproximam-se daquelas que passam distraídas, sem querer se deixar notar.

E é nesse encontro, quase imperceptível, que algo começa.

Porque nem tudo precisa ser dito para existir, mas tudo que existe, de algum modo, pede voz.

E é entre esse silêncio e essa voz, que a gente começa.