segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 O relógio já ia longe, embora o dia ainda não estivesse de pé. O céu era um acolchoado de algodão, com buracos por onde uma luminosidade brigava por escapar. E eu, na rua adormecida e engolida pela névoa, seguia o caminho sem ter para onde.

“O dia amanheceu antes de acordar”, pensei.


Os passantes, alheios a mim, circulavam sem pressa, sem interesse pelo que os rodeava.


Sentei em um banco e fiquei a observar. Caras fechadas, sorrisos soltos, conversas animadas, discussões — a vida desfilava diante de meus olhos.


A noite chegou antes de o dia se apresentar. E lá estava eu, a observar para fora, no escape de mim.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Fluxo de consciência

 Até que gosto dos rituais de assistir as pessoas tão entregues a energia do momento que mal se dão conta de estarem sendo observadas será que me observam também vou fingir não ver se alguém me olhar

será que ainda demora muito

já estou cansada mas vim tenho que ficar e esse teto tão bonito quem será que pintou como pôde ter alcançado 

É muito alto não gosto de altura mas gostava da roda gigante do parque que ia quando era pequena e comia pipoca  tenho que comprar milho para por na salada do almoço de amanhã e vinho tinto tem umas cinco garrafas vazias para jogar fora a lixeira é longe nunca lembro estou sempre atrasada tenho que dormir mais cedo acordar antes do sol lavar roupa arrumar a casa comprar o milho levar as garrafas fazer a salada não vai dar tempo de ver a série hoje mas só faltam três episódios não vou dormir antes das duas da manhã de novo vou aproveitar e ligar para Carla o fuso horário fica bom ela não gostava de milho só do sorvete que enjoo só de pensar gosto do de manga e de doce de leite tenho que comprar leite para mimi oh gato chato coitado fui eu que acostumei acho que vou adotar um cachorro mas só vou dar ração não vou fazer comida para ele não posso esquecer de comprar o milho para salada de amanhã estou com fome vou fazer um pão com ovo não tem pão vou comer só ovo bom que não engordo

domingo, 25 de janeiro de 2026

Eus

 E eu, que achava que o mundo se definia em quatro linhas: uma para cima, outra para baixo e outras duas para os lados, simples assim.


Hoje estou parada no meio da encruzilhada, sem saber qual direção dos meus “eus” devo seguir, ou talvez se deva abandoná-los todos e procurar por outro. Pois, a cada dúvida que me aperta o peito, sinto um novo “eu” brotar, puxando-me para uma direção diferente.


E pergunto-me: qual delas é realmente a minha? Qual desses “eus” sou eu?


E, como se escutassem meus pensamentos tortuosos, todos gritam: “é eu aqui!!”


Viro-me de costas e, com a cabeça entre as mãos, fecho os olhos na esperança de que, ao torná-los a abrir, consiga retomar a lucidez e reencontrar meu centro — meu “eu” único e absoluto, que julgo ser.


Então acordo, com várias máscaras caídas ao pé da cama, e vasculho qual delas irei usar hoje.

domingo, 9 de novembro de 2025

As Pessoas da nossa estrada (versão 2)

 Nem sempre as pessoas da estrada da vida são as que caminham ao lado.

Há aquelas que surgem na história, mas não tocam na alma, passam ao largo, como figurantes do enredo.

Há as que, embora invisíveis ao olhar, vivem em nossas vidas como presenças que o coração reconhece.

E as que estão inteiras: corpo e alma.

A vida é feita de fases e faces, em cada uma, cruzamos com pessoas que se afinam ou se perdem de nós.

Algumas deixam apenas o eco de um encontro; outras se tornam laços que seguem, mesmo no silêncio.

As pessoas da estrada não se medem por presença física, mas pela vibração, harmonia, energia que emanam, ainda que em outra frequência.

Essas afinidades não se escolhem: encontram-se.

Podemos passar uma vida a procurá-las e, sem aviso, tropeçar nelas no meio do caminho.

A estrada, às vezes, é dura e pedregosa.

Mas as pessoas da nossa estrada, que vibram conosco, tornam o peso suportável

e nos dão a força para mirar o horizonte sem derrapar.

Há quem ache não ter ninguém consigo.

Pena, porque não veem, ou pior, não sentem a presença que vibram por eles, discretas, como vento sobre a pele.

Sempre há alguém.

A estrada nunca está vazia: pulsa, respira, vive,

A vida não para; segue,

podemos acompanhá-la ou ficar à margem,

Ela não desacelera. Quando passar, já foi.

As pessoas da nossa estrada não a pavimentarão por nós,

mas estarão lá, para nos darem as mãos nos tropeços,

ou rirem conosco quando o sol surgir e aquecer o vazio,

Cada estrada é única.

Não reta, mas é só nossa.

Por entre curvas, desníveis e abismos,

é nela que o universo ferve,

que renascemos a cada dia,

Trecho a trecho, a trilha se desenha,

a cada fase, a cada respiro do existir.

 O olhar esvaziou-se, apagou-se.

A ternura evaporou. 

As folhas caíram das árvores para nunca mais voltarem. 

Meu jardim era tão florido… mas de flores de papel, que a menor chuva se desmontaram, perderam a cor.

Os alicerces eram de ilusão, de mentira - a fachada desmoronou bem diante de meus olhos.

Quis segurar, mas as ondas de fumaça passaram entre meus dedos, trêmulos, incapazes de detê-las.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Tenho tantos pensamentos que me invadem, me atormentam, me levam de uma certeza a outra — todas tão passageiras quanto uma cortina de fumaça.

Por que insisto em buscar soluções externas se não consigo sequer encontrar as minhas próprias?

Volto ao início, bebo um gole de minhas incertezas, observo o jardim de minhas conquistas, rego as flores que ali estão: algumas viçosas, das quais me orgulho, mas há outras que beiram a murchidão pela falta de rega. Esqueci de cuidar do que já tinha e parti em busca do que nem sabia o que era.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Tempo

 Telhado quebrado, panela no fogo, vizinho brigando, criança chora…, 

a vida passa, mas o tempo não passa. 


A volta não chega, o dia não amanhece.


Já se passaram 10, 30, 50 anos e a noite ainda não findou.


O tempo não está tendo tempo de se fazer perceber, corre nos braços dos olhos que não veem, do coração aflito, ansioso- mas que não respira o tempo de ser tempo.