domingo, 24 de maio de 2026

Tempo

 Um dia escutei meu amigo José Sardinha falar: “O tempo não existe, mas ele passa.” Aquilo mexeu tanto comigo, me fez parar e pensar no tempo que não vejo, mas que sinto, ou que não sinto, mas vejo. 

Não sei a ordem, visto que é tão subjetivo e evidente ao mesmo tempo, que não dá para explicar o que vejo ou o que sinto, mas é fato que existe e persiste. 

Há coisas na vida que não precisam ser explicadas para justificar a existência e talvez o tempo, o bendito tempo seja uma delas . 

sábado, 16 de maio de 2026

 A vida acontece nos intervalos, entre o respiro e o silêncio, nas brechas do caminhar e do chegar. 

Assim são as palavras quando se encontram e transformam sentimentos, memórias, lembranças,  em histórias a serem contadas ou não, mas sentidas com certeza. Porque é no coração que elas respiram, sobrevivem e criam as imagens que nos atravessam.

 Sou adepta dos porquês que não respondem

Das perguntas sem respostas

Das respostas sem perguntas 

Das atitudes sem definição 

Das buscas sem causas

Dos olhares perdidos em prol do nada que tudo encontram 

Da falta de programação que tudo realiza 

Do saber escutar mesmo quando se tem um mundo para gritar

Da lágrima que corre sem motivo dito

Do abraço que diz

Do olhar que fala


Da vida que vive sem ter explicar 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 Gosto do silêncio que envolve o que não há como ser dito, mas ainda assim insiste em estar presente.

E nos intervalos, no que parece não existir, nos quase, alguma coisa pulsa.

Os vazios se preenchem, aos poucos, como quem vai tateando o escuro.

E, de repente, o que era ausência se organiza, ganha corpo, se espalha, e chama e agrega.

As palavras guardadas, escondidas, sufocadas, aproximam-se daquelas que passam distraídas, sem querer se deixar notar.

E é nesse encontro, quase imperceptível, que algo começa.

Porque nem tudo precisa ser dito para existir, mas tudo que existe, de algum modo, pede voz.

E é entre esse silêncio e essa voz, que a gente começa.

 E a roda se abre.

Ela chega, pede licença, senta.


Cruza as letras delicadamente

e distribui poesia, contos, histórias, conversas.


Lança pequenos começos ao vento

para quem quiser completar.


Observa os que chegam, os que vão,

quem fica, quem fala, quem nada diz, 

e vai tecendo, à sua volta,

a teia da união.


É democrática.

Não há padrões pré-estabelecidos.

Cada um a encontra à sua maneira.

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Palavra

 

A palavra encontra quem a quer escutar, pode se fazer presente mesmo quando não é dita.

O seu brilho está no encontro, no sentar-se em volta do partilhar.

Curioso perceber que, em um mundo que cada vez mais descarta-se a presença, a palavra se faz ainda mais necessária e aclamada.

A palavra tem o poder de salvar, de libertar a alma. Por meio dela, podemos chegar onde nos permitirmos.

Ela rasga, entra, inebria, encharca a alma e encanta a vida.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 O Segundas da palavra me deu a alaegria do encontro, do olhar, do sentir a força das palavras, mesmo que não ditas. A cada encontro, um compartilhar de escritos, de histórias, de emoções que se misturam.

Um tempo dedicado ao mundo ao vivo, do olho no olho, a roda da escuta e do sentir.

Sempre uma estreia, porque, por mais que pareçamos os mesmos, nunca seremos os mesmos.

domingo, 8 de março de 2026

Tempo

 O que é a idade, e o que é o tempo? Para que servem?


Por que acompanhar tão de perto esses números tão absolutamente relativos, que buscam uma espécie de concretude dentro da mais absurda relatividade?


 Utopia querer igualar as marcações do tempo,  os relógios são únicos,

Meu um segundo pode ser a tua uma

hora. 


Então volto a pergunta para quem possa responder: o que é a idade, e o que é o tempo? 

segunda-feira, 2 de março de 2026

FOME

 Essa noite tive um sonho estranho.

Havia em mim uma grande fome de palavras. Eu as pegava uma a uma: mastigava, engolia. Depois outra. E outra. E outra. Mas a fome não cessava, ao contrário, crescia.


Acordei sobressaltada. A garganta apertava. Sentia-me engasgada. Tossi. Tossi. Vomitei. De uma só vez, expeli todas as palavras engolidas. Esvaziei-me do que havia sido retido, do que não foi dito.


E, vazia, voltei a dormir.

Sem fome.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 O relógio já ia longe, embora o dia ainda não estivesse de pé. O céu era um acolchoado de algodão, com buracos por onde uma luminosidade brigava por escapar. E eu, na rua adormecida e engolida pela névoa, seguia o caminho sem ter para onde.

“O dia amanheceu antes de acordar”, pensei.


Os passantes, alheios a mim, circulavam sem pressa, sem interesse pelo que os rodeava.


Sentei em um banco e fiquei a observar. Caras fechadas, sorrisos soltos, conversas animadas, discussões, - a vida desfilava diante de meus olhos.


A noite chegou antes de o dia se apresentar. E lá estava eu, a observar para fora, no escape de mim.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Fluxo de consciência

 Até que gosto dos rituais de assistir as pessoas tão entregues a energia do momento que mal se dão conta de estarem sendo observadas será que me observam também vou fingir não ver se alguém me olhar

será que ainda demora muito

já estou cansada mas vim tenho que ficar e esse teto tão bonito quem será que pintou como pôde ter alcançado 

É muito alto não gosto de altura mas gostava da roda gigante do parque que ia quando era pequena e comia pipoca  tenho que comprar milho para por na salada do almoço de amanhã e vinho tinto tem umas cinco garrafas vazias para jogar fora a lixeira é longe nunca lembro estou sempre atrasada tenho que dormir mais cedo acordar antes do sol lavar roupa arrumar a casa comprar o milho levar as garrafas fazer a salada não vai dar tempo de ver a série hoje mas só faltam três episódios não vou dormir antes das duas da manhã de novo vou aproveitar e ligar para Carla o fuso horário fica bom ela não gostava de milho só do sorvete que enjoo só de pensar gosto do de manga e de doce de leite tenho que comprar leite para mimi oh gato chato coitado fui eu que acostumei acho que vou adotar um cachorro mas só vou dar ração não vou fazer comida para ele não posso esquecer de comprar o milho para salada de amanhã estou com fome vou fazer um pão com ovo não tem pão vou comer só ovo bom que não engordo

domingo, 25 de janeiro de 2026

Eus

 E eu, que achava que o mundo se definia em quatro linhas: uma para cima, outra para baixo e outras duas para os lados, simples assim.


Hoje estou parada no meio da encruzilhada, sem saber qual direção dos meus “eus” devo seguir, ou talvez se deva abandoná-los todos e procurar por outro. Pois, a cada dúvida que me aperta o peito, sinto um novo “eu” brotar, puxando-me para uma direção diferente.


E pergunto-me: qual delas é realmente a minha? Qual desses “eus” sou eu?


E, como se escutassem meus pensamentos tortuosos, todos gritam: “eu aqui!!”


Viro-me de costas e, com a cabeça entre as mãos, fecho os olhos na esperança de que, ao torná-los a abrir, consiga retomar a lucidez e reencontrar meu centro, meu “eu” único e absoluto, que julgo ser.


Então acordo, com várias máscaras caídas ao pé da cama, e vasculho qual delas irei usar hoje.