domingo, 25 de outubro de 2020

Incertezas

 As incertezas são as certezas de que ainda há muito o que viver. Que faz com que a busca continue, que a vida siga seu curso no caminho do descobrir. Quando as incertezas findam, nada mais há por viver. 

O que seriam das respostas se não fossem as perguntas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Sentimentos proibidos

Alguns sentimentos, embora humanos, são politicamente incorretos de serem sentidos e muito menos expostos.

Como admitir que uma pessoa, dita do bem, sinta raiva? No que isso a desabona? Em nada eu diria, se me perguntassem. Não é nem saudável que não se possa extravasar a fúria por algo ou alguma atitude que nos fez mal, mesmo que tal tenha sido praticada por quem amamos, o que, por sinal não abala o sentimento. O mesmo poderia se dizer sobre a inveja, que é tida como o terror dos sentimentos, abominada, a pior da classe. Mas por que? Por que não poder sentir inveja de algo que se gosta no outro, ou melhor, por que não poder admitir que se sente? Existe uma errônea definição para o sentimento, que na realidade pertence a outro item da família, que é o usurpar, que nada tem a ver com inveja. Ter inveja, só conota que se admira e se quer para si algo que se vê no outro, mas sem desejar que o outro tenha que perder o algo almejado, que não possa tê-lo. Não há nenhum efeito colateral destrutivo em sentir inveja como é o caso de quando se quer usurpar, destruir o outro para ficar com que se acha que se tem mais direito do que ele. 

Seguindo a lista temos o arrependimento, absolvido pela celebre frase que diz mais ou menos assim: “não me arrependo de nada do que fiz e sim do que deixei de fazer.” Frase essa que classificaria como escudo dos reais arrependimentos de atitudes tomadas ao longo da vida que se daria tudo, caso pudesse-se, para voltar no tempo e apagar. Mas é mais confortável e até menos doloroso dizer que arrependimentos não existem.  

Poderia seguir com a lista dos sentimentos desaconselháveis de serem admitidos sentir, mas outro questionamento me invade, para o qual tenho menos respostas e que talvez pudesse ajudar a esclarecer o tema em questão deste texto, que o seguinte: Por que cada vez mais o Ser Humano se afasta de ser humano? Tanta busca pela perfeição, pela tecnologia, pela saude e para que, se o maior interessado e beneficiado a cada dia se afasta mais e mais de sua essência seguindo para um caminho que poderá leva-lo ao lugar onde não será possivel usufruir e desfrutar de suas próprias conquistas? Talvez fosse melhor voltar o foco para essência dos sentimentos, para real razão que o faz correr tanto a procura de si mesmo.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

As verdades de cada um

As verdades são individuais e intransferíveis. Vão sendo edificadas e guiando a vida que tem por base essa construção. As pessoas são seres semelhantes, porem diferentes e compactuar ou não dos mesmos conceitos e parâmetros é uma questão totalmente viável e aceitável a convivência. Mas, por vezes, existem diretrizes traçadas para uma mesma questão tão antagônicas que podem tornar difícil a aceitação para os extremos que defendem as duas linhas.

Não há um juiz, um julgador que irá condenar uma em prol da outra, as verdades têm que caber no mesmo mundo, por mais distintas e excludentes que possam parecer. Não existe a obrigatoriedade da aceitação do que não se acredita, mas sim a de respeitar. Porque embora individuais, não são únicas e absolutas. Uma não tem que morrer para outra poder existir. 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Pela Janela


Por essa abertura, que se transformou na única ligação que tenho com mundo lá de fora, passo meus dias a observar a vida que acontece no exterior do cenário onde vivo meu retiro.

Estou há dias, que passam rápido como um raio ao mesmo tempo que parecem pertencer a uma eternidade sem fim, a viver em meu universo particular delimitado pelas paredes de meu lar.

 A vida de fora e de dentro seguem em curso com as determinações dos acontecimentos que não dão escolhas a muitas variações, embora sempre exista alguma, cada um segue a sua. Eu sigo a minha na clausura do recolhimento em busca da suposta segurança.

Pela janela sigo meus dias a desejar do outro lado poder estar e sinto a energia do vento que lá bate. Me transporto para as calçadas, corro até o mar, mergulho e me energizo em suas águas, saio e rolo na areia e nela deito e fico a admirar o sol que me aquece a alma, iluminando a mente que bate em meu coração abrindo as portas das forças que lá residem me fazendo crer que breve tudo sera historia e de corpo presente, e não só de alma, estarei a desfrutar desse mar que tanto amo e que me acolhe com a divindade que só ele tem.

E das areias me levanto e sigo de volta ao meu pouso seguro de contemplação pela janela.

Meu amor

O meu amor é como vento que voa sem destino até onde o céu beija o mar e nele mergulha e sai a nadar ao encontro da lua que emerge do fundo das luzes que se apagam e sobe para céu que vira noite e de lá volta para encontrar o sol que das águas frias vem surgindo clareando a dama da escuridão que começa a se esquentar com seu esplendor e assim vem em voo rasante atingir meu coração que arde de anseio para a chama da paixão receber e para ela se abre deixando-se queimar até sucumbir de amor.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Toque de recolher

Olho de minha janela e vejo o deserto das ruas. Onde até ontem pessoas circulavam com passos frenéticos sem trocar um único olhar, agora posso ver até os buracos das calçadas do alto de minha sacada do décimo andar. Pois não há ninguém para bloquear minha visão. Inacreditável, se alguém me contasse que isso se daria não acreditaria, mas é verdade, está bem debaixo de meus olhos que buscam por uma imagem que se mexa e nada vê. 

O mundo parou, silenciou diante de uma criatura que nem ao menos podemos ver, um ser invisível aos olhos, mas nocivo a própria vida. 

De uma hora para outra tivemos que mudar a rotina, nos trancafiar em casa em quarentena e refazer nossos hábitos, reinventar a vida. A vida que não tinha tempo para ser vivida e agora está tendo que aprender o que fazer com ele. 

De repente a vida chega e diz: pendura a correria ali no cabide e vamos escrever um capitulo novo, uma nova forma. 

Mas e depois que a quarentena passar? Será que voltaremos correndo para mesma vida de antes, ou vamos gostar tanto desse novo ritmo que ficara difícil retornar? Um risco que teremos que correr. 

O mundo parou e curiosamente as pessoas em seus afastamentos parecem se unir muito mais do que quando as mãos podiam se dar e não sabiam o verdadeiro valor da aproximação. 

As sensibilidades afloram, a tolerância parece rever seus limites e as prioridades mudam. A vida vira seu foco para a busca do sobreviver. Os interesses se unificam entre ricos e pobres, religiões, raças, gêneros e orientações sexuais. Todos estão unidos por um único objetivo, o de acordar na manhã que será anunciada que vencemos esse inimigo invisível e que as portas do viver livremente serão reabertas. 

Enquanto essa manhã não chega vai se vivendo tentando ferozmente acordar a cada dia identificando as alterações nos valores que vão surgindo como brotos de uma nova arvore. 

Descobrimos habilidades até então desconhecidas do mundo da correria e da falta de tempo. Lembramos de pessoas com quem não falávamos há tempos e de repente simplesmente queremos saber se elas estão bem. O afastamento compulsório causa aproximações inesperadas e surpreendentes tão ou mais que as mudanças de hábitos e de prioridades. 

Talvez o mundo tenha parado para poder voltar a girar, talvez fosse necessário nos afogarmos no medo para voltarmos a respirar na esperança, talvez tivéssemos que morrer para poder viver. Mas isso é só e simplesmente talvez, o mesmo talvez que estamos vivendo a cada dia sem ter a certeza de nada a não ser de que nunca mais seremos os mesmos e que estamos vivendo um momento histórico da humanidade. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Quando menos se espera, a transformação vem e muda tudo, até o que se achava que estava perfeito. 

As vezes é preciso um ajuste, um balançar nas cadeiras do perfeito para adoçar a boca do eterno e inquieto desejo de viver a vida em sua plenitude, usufruindo o que ela tem de melhor a oferecer.