quarta-feira, 29 de junho de 2016

No piscar dos olhos do pensamento...

Era uma manhã ensolarada, tipo daqueles dias que dizem serem perfeitos para tudo. Mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso, minha única e absoluta prioridade era completar minha corrida diária e tão somente me sentia parte daquele cenário, com o mar de um lado, o asfalto de outro e eu no meio, sem a menor emoção, só suor e angustia pelo termino do percurso, desprezando totalmente qualquer coisa que ficasse entre o início e fim de minha penosa atividade.


De repente me dou conta que passou um tempo que não percebi, como se tivesse dormido de olhos abertos por alguns segundos e entrado na dobra do pensamento, naquele lugar especial que se consegue alcançar as emoções sem que para tanto seja necessário satisfazer qualquer exigências. No breve período que me libertei, me distanciei de minha árdua ocupação e olhei em volta e vi o mar, os raios reluzentes de sol, as pessoas, enfim, vi a vida e nem senti o desgaste físico que a corrida me causava. Facilmente esqueci o que fazia e me prendia onde estava. Tudo aconteceu rapidamente, no espaço de um piscar de olhos, no piscar de olhos do pensamento e quando suas frágeis pestanas voltaram a se abrir deu de cara com a soberana razão que o trouxe de volta para a aflição do resultado e só me restou o sofrimento dos minutos que ainda faltavam para concluir minha dura empreitada.

Enfim, como não me restava alternativa, prossegui minha corrida diária em busca da boa forma e saúde prometida, mas a experiência de madorna sentida momentos antes, embora tenha durado quase nada, me fez pensar: E se fosse possível sair do estado frenético e de obrigação por coerência que vivemos? Acionar uma espécie de hibernação do pensamento? Deixar a vida fluir naturalmente sem a necessidade de decisões definitivas? Se conseguíssemos, simplesmente, embora não seja nada simples, deixar o caminho seguir seu curso sem que ficássemos tentando responder as perguntas antes que elas fossem feitas, de tentar solucionar os problemas antes que eles se apresentem, de querer viver a vida antes que ela nasça, talvez tivéssemos mais tempo de vivê-la. 

Quando finalmente completei minha corrida no meio dessa ebulição reflexiva estava decidida em ir à procura pelo lugar em que o pensamento pisca, se desliga e atinge a plenitude dos fatos e no meio do caminho... lembrei que tinha uma bendita tarefa a ser realizada e rapidamente arregalei os olhos do pensamento e como que sugada por uma força incontrolável voltei para meu frenesi da busca pelas respostas urgentes e imediatas, vivendo a vida sem em olhar em volta.








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